Texto sob encomenda :)
-Alô
-e ae rapaiz
-fala sangue
- tá no samba?
-acabei de chegar
-e qualé?
- mesma coisa de sempre, um misto do pessoal da comunidade com intelectuais neo-hippies que curtem samba “mas só de raiz”. Do tipo que dança com seguranças e telefonistas, mas beijo na boca “já é demais”
-Quê isso? Teoria positivista-labial de sincretismo cultural? Prefere o Madras?
- 'Playboy bom é chinês ou australiano, fala feio e mora longe não me chama de mano'. Mas foi só um exemplo velho, de fato há mais de uma panela com misturas diferentes
- não foi essa a intenção da pergunta John: o som ta legal? Tem um baseado? Mininhas de saia? Rola Maracatu?
- sim sim tá perfumado o recinto mas ainda não terminei o censo sobre saias
- porra hermeneuta chato pra caralho esse que tu baxô, pensa numa gatinha de saia comprida, sorriso bonito, conversando sobre o pôr do sol ao nascer do dia enquanto rola um Badden ao fundo. Agora tira a imagem e fica com a sensação: a saia obviamente não é a questão, só usei o imaginário pra dialogar
- poesia pouca é bobagem, já disse que tá legal, mas tô na seca do baura, verãozinho e tal, tenho uma sobra de coquinho do beco de ontem pra te agradar
- bah, tava na rita com café, meter mais coquinho sem baura e eu faço o quê no agonaize?
- na real tem zelig depois, dá pra amenizar os tirinhos na ceva, pinta aí falador
- do beco pro odomodê, tá democrático ou tá virado e não tinha nada pra fazer?
- metade dessa merda vai no bambus parceiro, cada dia um personagem
- agora tu virou purista então? Vai propor um teste pra poder entrar aqui? Renda? Gosto musical?
- não cara, eu curto essa viagem, só to rindo de mim mesmo um pouco
-senti foi uma nuvenzinha de culpa logo acima da cachola
-belê mas sem ressentimentos
- então pra quê tanta preocupação? Pilha uma cachacinha?
- em cima da ceva?
- cara se tu quiser botar em baixo, em cima ou em fila tanto faz, mas eu preciso te deixar bêbado pra ver se desce um espírito menos ranzinza
- na real já to por vazar, dar uns tirinhos no estacionas e chegar no zeligdum
- foi
- mais feliz agora? Led tocando, roqueirinhas de cabelo repicado, all star e whiski... tá mais adequado pro teu clima?
- digamos que até já tá passando a angústia do coco
-tá ligado que todo mundo fica triste no inverno nublado e quando abre um sol com ventinho a galera toda fica feliz e vai pra rua, isso se chama normalidade. Mas se o cara tá na deprezinha do coco, toma uma ceva e tudo muda quando passa uma gatinha sorridente, isso se chama poli-toxicomânia mesclada com bipolaridade, CID número 7.478347427277492739827947.
- olha quem chegou
- filma que tirou a rasteirinha e botou um salto, muito pelo crime
-ontem tava de all star cano longo no beco
- se pah mudou de nome também
- vai lá oportunidade piscando em verde fosforescente
- preciso beber mais, dente rangendo não dá vontade de beijar nem a Audrey descendo a escada em My Fair Lady
- isso aqui tá mais pra O Iluminado
- o cara do som tá mais esquizofrênico que noite porto alegrense, é impressão minha ou tá rolando um fundo de quintal? Gafieira?? Não acabou de tocar Doors?! Não podia ter pelo menos uma música no meio pra alinhar o trajeto?
- arregado vai levantar a aura da raça
- vou lá
- eitcha elas vão meter a saideira no Hélio ali não pilha?
-Lembra que hoje é domingo?
- to indo pra lá justamente esquecer isso
- e a ritinha antes do trampo e depois do almoço vai te ajudar a lembrar parceiro? Saca que eu queria que tu fosse padrinho no meu casamento? Nesse ritmo vou ter que marcar pra essa semana ainda
- 'não sabe brincá não desce pro play, tamo na chuva já e além de tudo elas tem um fininho
- ah uma perninha de grilo vai fazer uma puta diferença mesmo, nem se tiver 50 gramas pra baixar essa velocidade
- Tá nascendo o dia e esse esquema tá cheio, de onde saiu essa gente?
- Quero saber é pra onde essa gente vai
- essa gente eu não sei, mas foi fumar um boa noite nas minas?
- belê mas se a idéia não for só fumar um boa noite eu preciso compra uma confiança na farmácia do postinho
- pega mais duas azuis de 50 pra mim, senão vou ter que abdicar da camisinha
- E vai nascer um personagem do X MEN
segunda-feira, 13 de Abril de 2009
segunda-feira, 23 de Março de 2009
sexta-feira, 20 de Março de 2009
Eu
Eu poderia não estragar-me mais a cada dia.
E, por causa da maresia, não ver o mar.
Eu não me levo a sério
Pra evitar ser um cara de pau
Fazendo de conta que não sou
O cara de pau que sou
Assumidamente
Eu, como Raul
Não sou capitalista
Socialista
Anarquista
Comunista
Mas foi quase:
Nasci ego-
-ísta
Eu acho que o grande problema
Da terra não ser o centro do universo
É que não faz diferença nenhuma
Eu estava dormindo
E Deus falou comigo!
Fiquei enebriado
Apaixonado
Deslumbrado
E então ele disse:
“É nóis nas frita”
Eu acho
No duro
Na real
Na lata
Numa sincera
De lei
Que já era
Eu estava pensando
Que o músculo
Bombeando sangue
Para todos os meus músculos
Poderia parar
Quando
De repente
Sem mais nem menos
Um cara veio discutir hermenêutica
Eu vi quando ele
Coerente
Engomadinho
De terninho
Doutoradinho na lapela
Caminhando retinho
Todo certinho
Bem sério
Discretamente
Botou no carrinho
Um papel higiênico-
-zinho
Eu, quando escuto
“não preciso de sexo pra ser feliz”
“não preciso de música pra ser feliz”
“não preciso de drogas pra ser feliz”
“não preciso de dinheiro pra ser feliz”
“não preciso de livros pra ser feliz”
Penso que eu só precisava ser surdo
E, por causa da maresia, não ver o mar.
Eu não me levo a sério
Pra evitar ser um cara de pau
Fazendo de conta que não sou
O cara de pau que sou
Assumidamente
Eu, como Raul
Não sou capitalista
Socialista
Anarquista
Comunista
Mas foi quase:
Nasci ego-
-ísta
Eu acho que o grande problema
Da terra não ser o centro do universo
É que não faz diferença nenhuma
Eu estava dormindo
E Deus falou comigo!
Fiquei enebriado
Apaixonado
Deslumbrado
E então ele disse:
“É nóis nas frita”
Eu acho
No duro
Na real
Na lata
Numa sincera
De lei
Que já era
Eu estava pensando
Que o músculo
Bombeando sangue
Para todos os meus músculos
Poderia parar
Quando
De repente
Sem mais nem menos
Um cara veio discutir hermenêutica
Eu vi quando ele
Coerente
Engomadinho
De terninho
Doutoradinho na lapela
Caminhando retinho
Todo certinho
Bem sério
Discretamente
Botou no carrinho
Um papel higiênico-
-zinho
Eu, quando escuto
“não preciso de sexo pra ser feliz”
“não preciso de música pra ser feliz”
“não preciso de drogas pra ser feliz”
“não preciso de dinheiro pra ser feliz”
“não preciso de livros pra ser feliz”
Penso que eu só precisava ser surdo
quarta-feira, 18 de Março de 2009
AFORISMOS PROFANOS XXX
Nós não emburrecemos nem esquecemos das coisas mais do que os evangélicos.
GALOCHAS, Queridas.
Idealizadora do Movimento Saia do Armário Cheech e Chong
GALOCHAS, Queridas.
Idealizadora do Movimento Saia do Armário Cheech e Chong
sábado, 14 de Março de 2009
Contracultura
Um amigo me disse recentemente que eu dou uma importância excessiva à contracultura dos anos 60/70. Acho, de fato, que ela foi a única revolução do século 20 que deu certo e, ao dar certo, melhorou a vida concreta de muitos, se não de todos. Acho também que suas conquistas só se mantêm pelo esforço cotidiano de muitos. Afinal (quem viu o filme entenderá), surge uma Anita Bryant a cada dia.
ROLIM
Recomendo fortemente a leitura deste texto e também do texto dele deste domingo na ZH. Disponíveis em www.rolim.com.br.
ERRATA:
marcelomayora disse...
E esse texto é do Caligaris, ô sequelado.
ROLIM
Recomendo fortemente a leitura deste texto e também do texto dele deste domingo na ZH. Disponíveis em www.rolim.com.br.
ERRATA:
marcelomayora disse...
E esse texto é do Caligaris, ô sequelado.
MOVIMENTO SAIA DO ARMÁRIO CHEECH E CHONG
Você que em público pergunta se o parceiro tá levando os documentos, que lembra a mina de não esquecer os invólucros e que pede por favor um moedor de especiarias no posto... Deixa de ser bundinha e SAIA DO ARMÁRIO CHEECH CHONG!!
(Lição número um do razoável filme de criminologia MILK)
(Lição número um do razoável filme de criminologia MILK)
sexta-feira, 13 de Março de 2009
Panis et circenses: A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte.
Mas é que
Se agora prá fazer sucesso
Pra vender disco de protesto
Todo mundo tem que reclamar
Eu vou tirar meu pé da estrada
E entrar também nessa jogada
E vamos ver quem é que vai güentar
Em meados de muito tempo atrás, eu e alguns amigos cabeludos resolvemos fazer uma intervenção violenta em meu colégio pequeno-burguês, na época dominado por freirinhas moralistas apoiadas por um Grêmio Estudantil composto por meninas bonitas e surfistas calhordas. Para isto, contávamos com o apoio do MES (movimento esquerda socialista), na época vinculado ao PT, hoje ao PSOL.
Depois de uma série de manifestações que incluíram fechar a Ramiro Barcelos com dezenas de crianças vestidas de vermelho, utilizar o MIRC (eu também contava com o apoio dos OPS do canal #bomconselho no servidor via-rs, o que possivelmente foi crucial na eleição) como forma de propaganda política e algumas outras coisas bizarras como invadir a rádio do colégio denunciando a total cumplicidade entre a direção conservadora e a composição do GEC (Grêmio Estudantil Cebecense), acabamos vencendo a eleição e também uma tentativa de golpe da direção através de uma sindicância ridícula que pretendia nos remover do cargo porque foi pendurada uma bandeira do BOB fumando maconha, na sala do GEC.
Nosso grupelho político contava com três vertentes: Uma burocrática, composta por meninas queridas e organizadas, mais alguns nerds roqueiros. Uma intelectualizada, composta por mim e outros preconceituosos. Uma terceira de feições claramente anarquistas, que obviamente abandonou o GEC em poucos meses. Eu era responsável pelo jornal do GEC, cujo Slogan era “Por um GEC dos alunos e mais ninguém”. Contávamos com o apoio de dois professores, amigos de bebedeira e sinuca até os dias de hoje. A minha vertente foi a que mais realizou eventos: debates políticos, referendos, informativos sociais e o caralho. Nos reelegemos nos anos posteriores.
De tudo isto, sabe o que mais me envergonha hoje? Justamente os jornais, os referendos, os informativos sociais e o caralho. Eu era uma criança preconceituosa as ganha, divulgando idéias de intelectuais medíocres que eu sequer tinha lido e usando um cabelo cumprido como forma estética de criticar ditaduras estéticas. Meus amigos anarquistas, hoje músicos, fizeram coisas que agora considero muito mais interessantes: músicas-legais-não-politizadas na rádio, festas intoxicantes e a transformação do GEC em um centro não de política, mas de mistura de grupos e outras cositas mais, justamente o que não era nossa bandeira política.
Um tempo depois encontrei o pessoal da MES em um buteco neo-hippie que os guris tocam, onde me contaram que estavam voltando de uma manifestação onde... Não lembro o resto porque não prestei a menor atenção, ainda que no estado em que me encontrava isto fosse possível (“me perco de noite e só me acho de dia” – Racionais dia 15) e ainda que não houvessem outras distrações bem mais interessantes naquele momento.
Não tenho absolutamente nada contra movimentos políticos a moda antiga, o que realmente me incomoda é a idéia que exista alguma possibilidade de quantificar merecimentos entre as conquistas sociais e as conquistas porra-loucas, e era aqui que eu queria chegar.
O dono do tunelnofimdaluz.blogspot.com provocou essa discussão no último post, o que gerou belos comentários, embora eu não esteja de acordo com uma e outra coisa. Plagiando Raulzito, “eu também vou largar uma queixadinha”:
1. Não é possível estabelecer o que é cultura e portanto é impossível estabelecer o que é contracultura, hoje. Sendo assim, pouco me importa se a reivindicação de uma tribo é progressista ou conservadora, mas me importa que haja uma reivindicação. O relevante aqui é que estas reivindicações justamente por serem “banais” são menos violentas que aquelas que eu defendia nos tempos de Bom Conselho. O direito de endoidecer e a liberdade virtual, na minha opinião, são direitos muito mais justos e menos violentos que algumas tentativas políticas de aliciamento intelectual cuja promessa de erradicação da desigualdade é uma bandeira questionável. De fato, o projeto de igualdade ou de erradicação da fome sempre virá apenas depois do projeto de homogeneização ideológica, porque a pobreza aparece discursivamente como conseqüência de um projeto político errado.
2. Não acho que isto seja necessariamente um problema, porque afinal de contas a existência de projetos sociais e a crítica de projetos sociais é um tema relevante. Mas vejam, os porra-locas não são contra projetos sociais, apenas não querem ou acham babaca esse tipo de luta. Assim como os construtores sociais acham que a luta pela descriminalização da maconha é um tema “menor”, como, aliás, o Gabeira anda dizendo por aí. Não é à toa que ele está se tornando um político bem sucedido.
3. Me parece que a luta pela descriminalização do consumo de drogas - tipicamente uma batalha de guerreiros não-politizados – tem uma possibilidade maior ou igual de diminuir a vitimização das camadas pobres que muitos projetos políticos.
4. Outras bandeiras políticas sustentadas por peda(dema?)gogos sociais (que considero altamente valiosas) não apenas reconheco como vitoriosas como acho que nunca teriam a possibilidade de serem elaboradas pelos porra-locas. Agora, querer que eles também sustentem essas lutas é algo que não faz o menor sentido e seria, inclusive, um retrocesso conservador.
5. Concordo que algumas profanações são engolidas e acabam tornando-se o próprio corpo do que pretendiam profanar, como diria o Bauman. Só que isto não é uma característica dos movimentos porra-locas contemporâneos, mas de todo e qualquer movimento. Querer deslegitimar uma tribo contemporânea através de um juízo virtual ou de uma generalização a ser comprovada posteriormente é algo violentíssimo.
6. Concordo que o festejar pode ser reflexo de uma vontadis-fazerdis-de-conta-que-essa-contemporaneidade-amarga-é-ou-será-um-doce. Mas qualquer manifestar-se é, de certa forma, festejar (Catroga). Não sei vocês, mas eu fui em todos as passeatas do PT com a consciência alterada. E, ainda que não estivesse, o tiozinho com o microfone está falando em justiça social menos como um político do que como um agitador, não é? Pelamordedeus, o que são as palavras de ordem?
7. Não concordo MESMO que deva haver um consenso, uma batalha ou uma quantificação de importância entre as bandeiras doces do futuro glorioso que a politização promete e as não-bandeiras doces do futuro glorioso que os consumidores de doce politizados de forma não-política prometem. Se houver consonância, uni-vos. Caso contrário, haverá certo embate discursivo, o que é salutar.
8. Assisti com Galochas Queridas o filme Persepólis, ontem. A polícia invadia as casas pra recolher bebidas alcoólicas. Titio Raul lembra que uma das palavras proibidas na ditadura foi a palavra “aranha”. QUALQUER vertente política teria motivos suficientes pra proibir bebidas alcoólicas e a palavra “aranha”. Definitivamente, essa não é uma possibilidade característica de movimentos contemporâneos, mas uma possibilidade SEMPRE presente.
9. A multiplicação de ajuntamentos coletivos evidentemente vai adquirir algumas feições repressivas, outras liberais, algumas libertinas. Assim como a liberação do consumo de droga não vai transformar o mundo em um exército de zumbis alucinados, a proliferação de pequenos grupos de consenso irá gerar consequências várias cujo desconhecimento não deveria gerar mais medo do que as consequências dos grandes consensos políticos.
10. Em suma, estamos falando de quem exatamente? Qual tribo? Em qual cidade? Em qual país? Quais suas características? Qual o histórico do movimento? Qualquer crítica que tangencie generalizações de uma multiplicidade de movimentos não generalizáveis acaba caindo no erro da rotulação. Não podemos prescindir dos construtores, nem dos porra-locas. Cada macaco no seu galho, como diria POPULAR, Ditadus.
11. Galochas sustenta a necessidade de uma Bolsa Salão para os pobres. Eu acho uma reivindicação importante. Por quê, necessariamente, um personal trainer vai oferecer um tratamento pior que um psicanalista? Por quê, necessariamente, o Prozac vai ser mais útil que a maconha? Por quê, “deterministicamente”, existem temas mais importantes que outros? Por quê eu preciso estar, coativamente, entre a bandeira e o baseado?
Se agora prá fazer sucesso
Pra vender disco de protesto
Todo mundo tem que reclamar
Eu vou tirar meu pé da estrada
E entrar também nessa jogada
E vamos ver quem é que vai güentar
Em meados de muito tempo atrás, eu e alguns amigos cabeludos resolvemos fazer uma intervenção violenta em meu colégio pequeno-burguês, na época dominado por freirinhas moralistas apoiadas por um Grêmio Estudantil composto por meninas bonitas e surfistas calhordas. Para isto, contávamos com o apoio do MES (movimento esquerda socialista), na época vinculado ao PT, hoje ao PSOL.
Depois de uma série de manifestações que incluíram fechar a Ramiro Barcelos com dezenas de crianças vestidas de vermelho, utilizar o MIRC (eu também contava com o apoio dos OPS do canal #bomconselho no servidor via-rs, o que possivelmente foi crucial na eleição) como forma de propaganda política e algumas outras coisas bizarras como invadir a rádio do colégio denunciando a total cumplicidade entre a direção conservadora e a composição do GEC (Grêmio Estudantil Cebecense), acabamos vencendo a eleição e também uma tentativa de golpe da direção através de uma sindicância ridícula que pretendia nos remover do cargo porque foi pendurada uma bandeira do BOB fumando maconha, na sala do GEC.
Nosso grupelho político contava com três vertentes: Uma burocrática, composta por meninas queridas e organizadas, mais alguns nerds roqueiros. Uma intelectualizada, composta por mim e outros preconceituosos. Uma terceira de feições claramente anarquistas, que obviamente abandonou o GEC em poucos meses. Eu era responsável pelo jornal do GEC, cujo Slogan era “Por um GEC dos alunos e mais ninguém”. Contávamos com o apoio de dois professores, amigos de bebedeira e sinuca até os dias de hoje. A minha vertente foi a que mais realizou eventos: debates políticos, referendos, informativos sociais e o caralho. Nos reelegemos nos anos posteriores.
De tudo isto, sabe o que mais me envergonha hoje? Justamente os jornais, os referendos, os informativos sociais e o caralho. Eu era uma criança preconceituosa as ganha, divulgando idéias de intelectuais medíocres que eu sequer tinha lido e usando um cabelo cumprido como forma estética de criticar ditaduras estéticas. Meus amigos anarquistas, hoje músicos, fizeram coisas que agora considero muito mais interessantes: músicas-legais-não-politizadas na rádio, festas intoxicantes e a transformação do GEC em um centro não de política, mas de mistura de grupos e outras cositas mais, justamente o que não era nossa bandeira política.
Um tempo depois encontrei o pessoal da MES em um buteco neo-hippie que os guris tocam, onde me contaram que estavam voltando de uma manifestação onde... Não lembro o resto porque não prestei a menor atenção, ainda que no estado em que me encontrava isto fosse possível (“me perco de noite e só me acho de dia” – Racionais dia 15) e ainda que não houvessem outras distrações bem mais interessantes naquele momento.
Não tenho absolutamente nada contra movimentos políticos a moda antiga, o que realmente me incomoda é a idéia que exista alguma possibilidade de quantificar merecimentos entre as conquistas sociais e as conquistas porra-loucas, e era aqui que eu queria chegar.
O dono do tunelnofimdaluz.blogspot.com provocou essa discussão no último post, o que gerou belos comentários, embora eu não esteja de acordo com uma e outra coisa. Plagiando Raulzito, “eu também vou largar uma queixadinha”:
1. Não é possível estabelecer o que é cultura e portanto é impossível estabelecer o que é contracultura, hoje. Sendo assim, pouco me importa se a reivindicação de uma tribo é progressista ou conservadora, mas me importa que haja uma reivindicação. O relevante aqui é que estas reivindicações justamente por serem “banais” são menos violentas que aquelas que eu defendia nos tempos de Bom Conselho. O direito de endoidecer e a liberdade virtual, na minha opinião, são direitos muito mais justos e menos violentos que algumas tentativas políticas de aliciamento intelectual cuja promessa de erradicação da desigualdade é uma bandeira questionável. De fato, o projeto de igualdade ou de erradicação da fome sempre virá apenas depois do projeto de homogeneização ideológica, porque a pobreza aparece discursivamente como conseqüência de um projeto político errado.
2. Não acho que isto seja necessariamente um problema, porque afinal de contas a existência de projetos sociais e a crítica de projetos sociais é um tema relevante. Mas vejam, os porra-locas não são contra projetos sociais, apenas não querem ou acham babaca esse tipo de luta. Assim como os construtores sociais acham que a luta pela descriminalização da maconha é um tema “menor”, como, aliás, o Gabeira anda dizendo por aí. Não é à toa que ele está se tornando um político bem sucedido.
3. Me parece que a luta pela descriminalização do consumo de drogas - tipicamente uma batalha de guerreiros não-politizados – tem uma possibilidade maior ou igual de diminuir a vitimização das camadas pobres que muitos projetos políticos.
4. Outras bandeiras políticas sustentadas por peda(dema?)gogos sociais (que considero altamente valiosas) não apenas reconheco como vitoriosas como acho que nunca teriam a possibilidade de serem elaboradas pelos porra-locas. Agora, querer que eles também sustentem essas lutas é algo que não faz o menor sentido e seria, inclusive, um retrocesso conservador.
5. Concordo que algumas profanações são engolidas e acabam tornando-se o próprio corpo do que pretendiam profanar, como diria o Bauman. Só que isto não é uma característica dos movimentos porra-locas contemporâneos, mas de todo e qualquer movimento. Querer deslegitimar uma tribo contemporânea através de um juízo virtual ou de uma generalização a ser comprovada posteriormente é algo violentíssimo.
6. Concordo que o festejar pode ser reflexo de uma vontadis-fazerdis-de-conta-que-essa-contemporaneidade-amarga-é-ou-será-um-doce. Mas qualquer manifestar-se é, de certa forma, festejar (Catroga). Não sei vocês, mas eu fui em todos as passeatas do PT com a consciência alterada. E, ainda que não estivesse, o tiozinho com o microfone está falando em justiça social menos como um político do que como um agitador, não é? Pelamordedeus, o que são as palavras de ordem?
7. Não concordo MESMO que deva haver um consenso, uma batalha ou uma quantificação de importância entre as bandeiras doces do futuro glorioso que a politização promete e as não-bandeiras doces do futuro glorioso que os consumidores de doce politizados de forma não-política prometem. Se houver consonância, uni-vos. Caso contrário, haverá certo embate discursivo, o que é salutar.
8. Assisti com Galochas Queridas o filme Persepólis, ontem. A polícia invadia as casas pra recolher bebidas alcoólicas. Titio Raul lembra que uma das palavras proibidas na ditadura foi a palavra “aranha”. QUALQUER vertente política teria motivos suficientes pra proibir bebidas alcoólicas e a palavra “aranha”. Definitivamente, essa não é uma possibilidade característica de movimentos contemporâneos, mas uma possibilidade SEMPRE presente.
9. A multiplicação de ajuntamentos coletivos evidentemente vai adquirir algumas feições repressivas, outras liberais, algumas libertinas. Assim como a liberação do consumo de droga não vai transformar o mundo em um exército de zumbis alucinados, a proliferação de pequenos grupos de consenso irá gerar consequências várias cujo desconhecimento não deveria gerar mais medo do que as consequências dos grandes consensos políticos.
10. Em suma, estamos falando de quem exatamente? Qual tribo? Em qual cidade? Em qual país? Quais suas características? Qual o histórico do movimento? Qualquer crítica que tangencie generalizações de uma multiplicidade de movimentos não generalizáveis acaba caindo no erro da rotulação. Não podemos prescindir dos construtores, nem dos porra-locas. Cada macaco no seu galho, como diria POPULAR, Ditadus.
11. Galochas sustenta a necessidade de uma Bolsa Salão para os pobres. Eu acho uma reivindicação importante. Por quê, necessariamente, um personal trainer vai oferecer um tratamento pior que um psicanalista? Por quê, necessariamente, o Prozac vai ser mais útil que a maconha? Por quê, “deterministicamente”, existem temas mais importantes que outros? Por quê eu preciso estar, coativamente, entre a bandeira e o baseado?
12. Não acredito que esta seja uma dinâmica que privilegie este ou aquele estamento econômico. O filme Sou Feia mas tô na moda mostra como o baile funk não apenas subverteu o domínio machista nas favelas como ainda apresentou uma bela alternativa aos paternalismos sambistas.
13. Termino por aqui pra combinar com essa sexta-feira 13, lembrando que temos centenas de leis e projetos cerceadores e preconceituosos, mostrando que não importa a forma, mas o conteúdo do "fazer política".
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